Churrascão no Vestíbulo do Inferno
O “Vestíbulo do Inferno” aparece na primeira parte da Divina Comédia, obra monumental do escritor, poeta e político italiano Dante Aligheri (Florença, 1265 — Ravenna, 1321). As outras duas partes são “Purgatório” e “Paraíso”.
Divina Comédia versa sobre odisséia do Poeta no inferno conceitual da Idade Média. O périplo de Dante Aligheri pelos nove círculos infernais é guiado pelo poeta romano Virgílio, que vivera quase dois mil anos antes.
Tive uma edição italiana do Inferno de Dante de capa dura (revestida de couro entalhado a mão), primorosamente ilustrada por Gustave Doré. Presente da mãe. Durante anos, vez após outra, degustava cada sílaba do verso do Poeta e cada traço da imaginação do artista.
Lembrei-me da obra medieval ao participar do “churrascão” que ONGs e movimentos sociais promoveram ontem na esquina da rua Helvétia com a alameda Dino Bueno, no olho do furacão, na Cracolândia de São Paulo.
O “Vestíbulo” é para onde vão as almas dos que não são aceitos no céu, mas que não merecem ir para o inferno. Exatamente como aqueles farrapos humanos prisioneiros de seus infernos particulares aos quais se pretendeu mostrar que nem todos os esqueceram.
Mas não foi só aos condenados que a iniciativa se deveu. Pretendeu-se mostrar ao governo do Estado (policial) de São Paulo e às suas forças de repressão que há quem não aceite os métodos que estão empregando contra aqueles que continuam sendo seres humanos.
Quem esteve lá sabe o que viu e ouviu. E eu sei. Os raros relatos de prisioneiros do crack desconfiados de que aquilo que ali acontecia não poderia ser em seu benefício – pois nada jamais é – tratam de supostos crimes cometidos por seus algozes.
Relatam que apanham até quando estão dormindo. Um deles disse que a polícia espancou alguém de seu grupo, jogou a pessoa no meio da rua e atropelou. E quando perguntados sobre o que gostariam de dizer à sociedade, dizem que apenas gostariam de parar de apanhar.
A presença da polícia, pois, era ameaçadoramente ostensiva. Entendo que até deveria estar lá para proteger os manifestantes, pessoas de classe média, a grande maioria jovem. Mas se o objetivo fosse proteger não deveria ter ficado tão longe – a uns cem metros de distância.
Então percebo que do teto de uma das bases móveis da polícia estão filmando tudo. Decido ir até lá perguntar a razão.
– Boa tarde, policial.
– O que você quer?
– O senhor poderia me informar a razão da filmagem?
– Não posso. Só o capitão (…).
– Onde ele está?
– Atrás do furgão.
Contorno a base móvel da PM.
– O sr. é o Capitão (…)?
– Eu mesmo.
– Gostaria de saber por que os senhores estão filmando o ato público.
– Em primeiro lugar, quem é você?
– Sou do Blog da Cidadania. Vim cobrir a manifestação.
– Não podemos falar.
– Por que não?
– Ordens.
– De quem?
– Não posso dar informações.
Distancio-me alguns metros do furgão e, naquele momento, sucede uma cena no mínimo curiosa: enquanto fotografo o equipamento de filmagem e o aparato policial em seu entorno, sou fotografado. Travei uma guerra de câmeras com a PM.
A atitude pouco amistosa dos policiais, o interesse inexistente ou proibido de dar satisfações à sociedade sobre seus métodos de atuação, tudo isso deixa ver uma paranóia contra não se sabe o que. Era como se temessem um atentado terrorista.
A quem filmavam? Será que alguém iria traficar drogas em um local que tinha tantas câmeras e tanta polícia? Para que filmariam aqueles farrapos humanos que tão bem conhecem, pois de lá não saem?
Quem foi filmado, portanto, foram aqueles que levaram alento e comida a esfaimados. Mas por que? Que crime poderíamos cometer ao levar um sopro de humanidade ao inferno?
Refleti, naquele momento, que o Estado está completamente divorciado da sociedade, em São Paulo. O cidadão que diverge das autoridades locais é visto como inimigo. Por isso a polícia paulista é tão grosseira, autoritária e violenta.
As constatações deprimentes que aquela descida ao inferno causou, porém, não parariam por ali. Os zumbis do crack e os visitantes solidários pouco se misturavam. Os receptivos eram moradores de rua, mas não necessariamente usuários daquele veneno.
Alguns usuários de fato atravessavam a multidão dando encontrões de raspão, aparentemente contrariados. Fiquei imaginando se não temiam que tudo aquilo lhes fosse cobrado pelos opressores quando fôssemos embora.
Aqueles filhos de Deus rescendendo a morte, a excrementos, a álcool, com bocas desdentadas, feridas espalhadas e olhares mortiços… Como ir embora e deixá-los lá? Como sair dali sem ter feito nada? E o que é mais: como purgar a culpa por fazê-lo?
Moças e rapazes tentavam puxar canções, instilar alguma alegria no entorno – como se fosse possível –, mas não repercutia. Não havia espaço para outro sentimento além da perplexidade. E a separação tácita entre visitantes e anfitriões, mesmo estando misturados, tornava tudo pior.
Após resistir por cerca de uma hora, não suportei mais. Despedi-me de amigos que lá encontrei e saí em fuga daquele inferno. E sem olhar para trás.
Perdi a noção de tempo e espaço. Caminhei debaixo de chuva por quilômetros. Só então parei um táxi. Chegando em casa, tomei uma dose de cachaça. E mais outra. Lá pela terceira percebi o que estivera fazendo: tentara, sem sucesso, redimir-me da culpa.
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PARABENS EDU pelo texto reportagem!! parabens pela foto com o padre Julio Lancelotti….da pastorasl de Rua!! um batalhador pelos excluidos………****
Caro Eduardo,
Na USP a PM também estava filmando, inclusive nesta última ação em que o policial agride um estudante negro. Voltamos ao tempo da repressão? Não deveria o Ministério Público apurar o motivo destas filmagens?
claro
Enquanto o churraco acontecia, 200 pessoas consumiam crack nas imediacoes, como informado pelo agora.
Qual foi o motivo desse ato alem de politica? Pq voce, assim como o Padre Lancelotti, que se diz tao preocupado com o povo de rua, nao levam eles pra casa?
Eu moro ao lado da paroquia S. Miguel arcanjo. Pergunte ao Padre Lancelotti, porque a paroquia dele é cheia de cerca eletrica e mendigo nao entra ali. Ele ama o povo de rua – desde que o povo de rua CONTINUE na rua.
Na paroquia do padre lancelotti so entra gente com $$$. Vai alguem miseravel entrar la, acontece rigorosamente o que voce comentou sobre sua filha: as pessoas ficam com preconceito e sugerem a pessoa sair do local. Nao precisa falar do que “eu acho”. Eu vejo.
Nao precisa publicar eu sei que voce nao gosta de ler esse tipo de coisa. Mas fica pra voce esse breve comentario.
O homem é o lobo do homem, né Adam Smith? E Darwin que cuide dessa escoria, certo?
O lobo é lobo do homem mesmo.
O fato é que nada desse convescote resolveu a questao do povo da cracolandia nao é?
Ha quantos anos o povo que é viciado esta ai, o que o sr lancelloti fez ate agora? Da comida? Uma vez ou outra por semana? Me diz quantos desses ai ele levou com ele?
Alguem nesse encontro estava realmente preocupado em solucionar a questao do vicio dessa gente toda ou estava mais preocupada em deitar falacao no governo de sp? Nao estou falando em absoluto que esteja certo ou errada a operacao do governo, so vou poder julgar apos o fim da operacao. A minha questao é, o povo que tanto foi la falar da repreensao nao fez nada pra resolver o problema porque?
Das “40 entidades” presentes, quantas atuaram de forma real nos ultimos 10 anos para acabar com o problema dos viciados de rua?
“Ha quantos anos o povo que é viciado esta ai, o que o sr lancelloti fez ate agora? Da comida? Uma vez ou outra por semana? Me diz quantos desses ai ele levou com ele? ” Perguntas facílimas de responder: se os teus adoradores do mercado, os liberais, tivessem resolvidos no tempo que você falou, não precisariamos de “convescotes” para atrair atenções, nem dos padres Lencelotti’s da vida. Ou será que não?
Adam Smith não parece ter tido qualquer contato com a dor, com o desespero, com o fundo do poço do vício. Fala provavelmente de sua janela, suburbana ou de elite.
Mas perdoemos ele, pois nao sabe do que fala.
Quem por sua vez conhece um pouco do desepero que a carne chega, se observa, com seriedade (e quiçá ciência) o comportamento dos vicios, sente pena, sente como o ser humano é banal, e como precisa de ajuda para sair de sua condição.
E digamos isso de toda a elite, que além de esclarecida, e com comida na mesa, uma linda sacada, e dinheiro para festa, ainda assim, consome alcool até se entorpecer, cocaína (ou são os pobres que consomem???????), extasy e etc….
E mais ainda, elite entorpecida que comete crimes todos os dias matando milhares de pessoas no transito com suas maquinas em rodovias federais (100 pessoas por dia Adam?).
Sobre os limpinhos viciados, ou melhor, adictos, vamos trata-los da mesma forma? Vamos bater, encarcerar, espancar rostos lindos e “saudáveis”? Ou por terem tido tanta oportunidade, apoio, merecem mais que a morte (tortura?) pois são prova de que alguns seres humanos escolhem mal, é ruim, enfim não aproveita oportunidades que tem?
Mas falamos do inferno. Falamos de pobres diabos, sujos, doentes. E se alguém, perante este povo não sente nem um pouco de pena, de dor, de tristeza, é algo assustador. Uma morte precoce, talvez.
Para estes pobres de alma, admiro quem oferecer uma mão. admiro quem oferecer um pão.
Mas somente quem não entende de tratamento para adictos pode falar que faltou ao padre que visita o inferno abrir sua porta para o doente.
Trabalho com adictos, esse vestibulo do inferno. E é duro ver aqueles que pagam por seus erros com duras penas.
Adam, vá a uma clinica, a uma “landia”, a um hospital, a um CAPS e passe um dia lá. Tente fazer amizade com algum usuário, com algum doente por mais repugnante que pareça. Quando te sentires amigo de um (sim! sentimento de amizade, fraternidade, legitimo, como um amigo) faça novamente o julgamento do que é melhor pra ele, qual o problema dele e etc…
tenho certeza que irás pensar diferente, e o melhor de tudo, estarás diferente, talvez para toda a vida. Não negarás pão ao rosto faminto. Que busca a sua destruição mais ou tanto quanto a tua.
Conhecer um pouco esses pobres diabos, e ver que a questão não é tanto politica, mas sim de humanidade.
Talvez a principal questão politica do brasil atual, não seja politica, no sentido usual, mas sim de valores, de humanidade.
Talvez nos separemos entre os que tem empatia a outro ser humano; aqueles que sabem colaborar e os que não sabem.
Mas ainda discutimos siglas, partidos. Contratos. Coisas que valhem para bancadas ávidas por mais dinheiro, poder. Mas isso não vale para uma nova politica, onde gentileza gera gentileza. Com muitas criticas possiveis, mas penso que Lula iniciou essa nova era e etica, nao trocando chutes por pontapés, xingamento por xingamento, raiva por raiva, mas tendo um povo, uma humanidade como linha mestra.
Mas guardem possiveis criticas ao icone (sempre questionável) e fiquem apenas com a humanidade, com a consideração ao outro, senão Franciscana, ou Cristã, apenas racional e cientifica.
Estudando o que modifica comportamento, estudando modelagem de comportamentos, que os (liberais) americanos estudaram muito, e que conclui experimentalmente (ler Skinner) que a punição é a PIOR forma de modificar comportamento. Entenda-se aqui: a menos eficiente!
Enfim otimo texto para gerar reflexões e emoções.
Disso se conclui que uma das 3 é válida:
1. Você já levou centenas de viciados pra casa, os tratou e reabilitou.
2. Você acha que os viciados são escória e não há problema nenhum na situação deles.
3. Você é hipócrita.
Você não entendeu p… nenhuma do texto. Leu o último parágrafo ou não? Deixa de ser petulante.
Edu
Parabéns pela sua coragem e pelo seu senso de Humanidade. Você é imprescindível.
A PM deve ser repensada.Da forma que é usada é para intimidar e agredir.Não passam de pittbulls alugados,dos quais os reacionários se valem,sempre que podem.Scott Fitzgerald disse que os guardas mais fortes são colocados em frente a portões que levam a nada.Por ser o nada uma coisa muito vergonhosa para ser vista.É isso que fazem.Colocam seus cães amestrados (que me perdoem os animais) para controlar e esconder dos olhos do público,aqueles que mais necessitam de ajuda.Os “cães de aluguel” substituem os agentes de saúde?Com a palavra os assistentes sociais,os médicos,os psicólogos,terapeutas… Certamente após as sessões de tortura que esse governo medíocre os expôs,os usuários não haveriam de ser receptivos.Já não discernem a realidade,graças as drogas.Depois das agressões,tudo ficou mais confuso.Ao Marco da “pastoral”,devo dizer que uma anti rábica será a solução.Ou um trabalho na PM paulista,para seu deleite e glória. EDU,sabemos que essas,assim como muitas outras pessoas,que estão em condições de miséria humana,são produtos de políticas mal pensadas e nunca voltadas para o social.São vítimas há séculos,até porque,a sociedade sempre se favoreceu disso.Vide a protituição.Meus tios me dizem que as meninas pobres sempre existiram, para deleite dos meninos ricos…que sempre as usaram e após adultos,sempre trabalharam com afinco,para que tudo continuasse assim… para deleite de seus filhos.Não sei se me fiz entender.Para cada ação,há uma reação.A droga é vendida livremente,porque alguém se favorece com isso.Então quem está falhando é o governo,é a segurança pública,é a mídia,que não dá nome aos bois.Talvez os traficantes sejam doadores de campanhas, não devam ser incomodados…sabe-se lá.Depois de ver o que fizeram com nosso patrimônio,onde lavavam o dinheiro roubado com o mesmo homem que lavava dinheiro para traficantes brasileiros…penso que se o governo CHEIROSO,tiver que escolher entre o povo da rua e um traficante poderoso…me atrvo a dizer que a escolha seria pelo traficante.É isso que devemos enxergar.Por que não param com a causa? Mas esperar o que de um governador que manda bater em alunos,manda bater em uns pobres diabos que sequer sabem onde estão? OU PIOR,O QUE PENSAR DE UM GOVERNADOR QUE ACEITA CONVERSAR COM UM LIDER DE UMA FACÇÃO CRIMINOSA?DE UM SUJEITO QUE SE INTITULA ALGO QUE ESTÁ LONGE DE SER?Um governador governa,não senta a mesa de um criminosa e aceita seus termos.Isso é se aliar ao crime.Alckimin sentou com Marcola, porque estava refém do crime que se instalou,plácida e tranquilamente em sua cidade,por incompetência deles,os governantes.Então,o alto de sua sapiência,as AUTORIDADES,HIPOCRITAMENTE,sem coragem ou inteligência para atacar a CAUSA,atacam a consequência …de sua inoperância,sua burrice,sua desfaçatez,sua omissão,sua arrogância,sua falta de humanidade e ,principalmente, de vergonha na cara.
Eduardo, com sensível competência, trouxe o cheiro da carne, não a do Churrascão óbviamente, ás narinas e mentes dos que não puderam ou quiseram comparecer, mas quiseram lê-lo e informarem-se.
O final desse dantesco espetáculo, há anos apresentado nas cercanias dos “Campos Elíseos” (sic), é sempre o mesmo, quer via churrascão, real ou virtual, ou sem churrascão, para quem viu-se, pelo menos uma vez, no meio desse absurdo Thriller em plena Paulicéia Desvairada, que ora nos oferece um Dom Paulo com Lula, ora apresenta Dom Geraldinho com Maluf : Impotência culposa por negligência pública, na veia.
Segue-se à vida, com alguns andando e bebendo, outros poucos vomitando e muitos, catatônicos, vagando e esquecendo, enquanto indiferenciados continuam a beber reinaldos nunes, puros, como nunca e a babar intolerância, burra, como sempre.
Parabéns Edu. Belo texto. Senti a culpa daqui.
Eu também Ismael… :/
Tenho a mesma dúvida desde então: a PM filmava viciados ou subversivos?
Ou ainda, nada filmava, apenas tentava intimidar novos protestos?
São Paulo, o Estado mais reacionário do País!
Mudam-se as siglas, mas o modus operandi é o mesmo.
O governo baiano é PT.
A PM baiana age igualzinha a PM paulista.