Mídia domesticada aceita censura no Pinheirinho sem reclamar

Desde o último domingo, pessoas que residem no Pinheirinho vêm me enviando mensagens privadas pelas redes sociais, por e-mail e via comentários aqui no blog. Tais mensagens contêm relatos de violências indiscriminadas que a Polícia Militar estaria praticando em sua operação de “reintegração de posse”.

Infelizmente, nenhuma dessas pessoas aceitou se manifestar publicamente ou ter seu nome divulgado. Sem isso e sem informações objetivas sobre quem são as vítimas fatais e não-fatais da operação de “reintegração de posse” do último domingo, torna-se impossível ajudar.

Todavia, conversa por telefone com um morador de São José dos Campos pode servir ao menos para indicar o caminho que deve ser tomado para se chegar à verdade, pois as denúncias sobre mortos e feridos graves só fazem aumentar.

Basicamente, o que me foi dito é que haveria “milhares” de testemunhas de ataques a bala e espancamentos, alguns dos quais com resultados fatais.

Perguntada por mim sobre como é possível que tanta gente tenha visto tudo isso e que não apareça ninguém que diga quem são as vítimas, a fonte diz que quem viu o que aconteceu ou até quem foi vitimado não fala sobre o assunto porque a PM estaria ameaçando quem “vazar” alguma coisa.

É evidente que pode se tratar de alguém que esteja querendo pressionar o governo do Estado e a própria polícia a terem mais cuidado com a operação, já que casos de violência excessiva já se tornaram públicos até em vídeos, porém sem conter nenhuma prova de que algum ataque tenha ocorrido por outros meios que não sejam uso de gás e de balas de borracha.

Contudo, imagens de policiais militares usando luvas de borracha e empunhando pistolas também já se espalharam, o que sugere que podem ser pistolas letais, pois é claro que empunhá-las com as mãos enluvadas só se justifica se for para não deixar impressões digitais nas armas ou resíduo de pólvora nas mãos.

Há até relatos em áudio feitos por testemunhas que viram pessoas gravemente feridas (algumas seriam crianças) dando entrada em hospitais de São José dos Campos, mas nada de nomes.

É impossível receber esses relatos e não reproduzir nada. Até por conta da falta de transparência do governo do Estado comprovada por matérias em sites e portais da grande mídia que afirmam que a PM está impedindo o livre acesso dos jornalistas aos acampamentos de despejados ou ao IML, por exemplo.

A polícia diz que está impondo censura para impedir comoção e levantes da população que poderiam ocorrer devido à presença de jornalistas, o que é uma barbaridade. O Brasil não está em guerra e o trabalho da imprensa é crucial para dirimir as dúvidas sobre se ocorreram ou não assassinatos, espancamentos e outras formas de abuso.

Segundo a minha fonte, apenas a Globo consegue alguns privilégios de acesso às áreas censuradas por ser considerada “confiável” pela PM. Como essa emissora adotou uma postura de defesa aberta de um lado e de supressão das denúncias do outro, a situação se torna ainda mais obscura.

A passividade da grande imprensa diante da postura do governo de São Paulo de não lhe permitir acesso livre à região, é incrível. Não se entende esses órgãos de imprensa aceitarem que a Polícia conduza seus repórteres só aonde ela quer, como se estivessem em uma excursão. Justo a grande imprensa, que vive falando em “censura”.

Nesse quadro, é lícito espalhar as notícias sobre mortos e feridos graves, ainda que sempre no condicional. Tanto é lícito que artigo publicado no diário britânico The Guardian noticiou as denúncias de mortes nessa operação específica da Polícia Militar de São Paulo, exatamente como vem fazendo este blog. O texto no jornal inglês, aliás, deu informações que o Jornal Nacional escondeu e ainda criticou a grande mídia brasileira.

Veja tradução livre que fiz de trechos do artigo do The Guardian:

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(…) Até sete mortes foram relatadas, incluindo a de um bebê, embora nenhuma delas tenha sido confirmada oficialmente (…) Durante todo o dia [ domingo], a mídia corporativa do Brasil, que tem ligações históricas com o partido no poder estadual, relatou a história em tons suaves. As manchetes destacavam a van de uma TV que fora incendiada enquanto ignoravam as casas em chamas da população (…) Em lugares como Irã e Egito, a mídia social tem funcionado como uma ferramenta contra o controle estatal da informação. No Brasil, tem ajudado a contornar um monolítico setor de mídia privada, que é sub-regulamentada e altamente concentrada (90% da indústria está nas mãos de 15 famílias). Como outros meios de produção e circulação de informação tornaram-se mais facilmente disponíveis, a mídia corporativa do país começou a perder credibilidade. Os meios alternativos foram veementes em sua condenação do Governo do Estado de São Paulo no último domingo, e com razão (…)

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A única forma de se saber a verdade e de acabar com as especulações, portanto, é o governo do Estado de São Paulo suspender imediatamente a censura que mandou a sua polícia impor e passar a garantir o livre acesso de juristas, imprensa, parlamentares etc. a qualquer parte daquela localidade, sem exceções.

Além disso, o governador Geraldo Alckmin tem obrigação de ir ao Pinheirinho, diante da imprensa, ouvir comissões de moradores e  garantir proteção a quem aceite formalizar denúncias concretas. Essa, aliás, é a condição da minha fonte para se identificar. E diz que também é a condição das famílias das vítimas fatais.

Na falta do governador do Estado de São Paulo, se for o caso, poderia ser formada uma comissão de alto nível integrada por juristas, políticos, jornalistas, religiosos, movimentos sociais e sindicatos. Essa comissão se instalaria na região ininterruptamente a fim de acompanhar a “reintegração de posse”. Mas Alckmin teria que dar permissão…

Para finalizar, quero enviar um recado a quem estiver no Pinheirinho e dispuser de algum dado concreto sobre vítimas e abusos – e quando digo dado concreto, é relato de casos contendo dia, hora, lugar e, sobretudo, nomes. Qualquer informação que quiserem me passar, só será divulgada com a anuência do informante.

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Novo vídeo do Massacre do Pinheirinho

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Vídeo de agressão imotivada de policiais


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Leia a íntegra do artigo publicado no jornal The Guardian

Via blog do Sociólogo Ruda Ricci

A luta contra o despejo do Brasil Pinheirinho pode ser uma inspiração

guardian.co.uk , Terça-feira 24 de janeiro de 2012 GMT 15,23

A fotografia se espalhou pelo mundo rapidamente: mostra os moradores do Pinheirinho, favela no estado de São Paulo, vestindo capacetes, escudos e barricadas para resistir a uma ordem de despejo. (…)

Pinheirinho foi ocupado por oito anos, sem nenhum esforço do governo para regularizar a área ou desenvolver uma infra-estrutura adequada. Lar de cerca de 6.000 pessoas, a terra pertence a um fraudador do  mercado financeiro, preso em 2008. Estimulado pelo boom imobiliário do Brasil, a administração local tornou-se recentemente ativo na prossecução do despejo, com a cumplicidade de juízes que pareciam querer que isso acontecesse o mais rápido possível.

Depois da primeira imagem do despejo ser divulgada, o governo federal prometeu intervir através da compra de terra e devolvê-la para os ocupantes. Pelos fundamentos expostos, um juiz federal suspendeu o despejo, apenas para ser rapidamente anulado por um outro, que declarou ser uma questão de estado. O Poder Judiciário estadual, em seguida, agiu rápido antes que os advogados dos favelados ‘ pudessem reagir. No domingo, as redes sociais estavam zumbindo com relatos de guerra, como cenas de brutalidade e contos, incluindo a proibição da mídia e bloqueio de celular na área, além de rumores da possível detenção de um deputado federal e um senador que tentaram intervir (mais tarde foi esclarecido que não foram detidos, mas estavam num local fechado, tentando negociar). Até sete mortes foram relatadas, incluindo um bebê, embora nenhum deles confirmado oficialmente até o momento.

Foi principalmente graças aos meios de comunicação social que informações sobre os despejos pôde ser encontrado. No Twitter, a hashtag # Pinheirinho se tornou um top durante um par de horas. Durante todo o dia, a mídia corporativa do Brasil, que tem ligações históricas ao partido no poder [em SP], tanto em nível estadual e local, relatou a história em tons suaves: manchetes destacando uma van incendiada enquanto relevava as casas das pessoas em chamas.

Em lugares como Irã e Egito, a mídia social tem funcionado como uma ferramenta contra o controle estatal da informação. No Brasil, tem ajudado a contornar um monolítico setor de mídia privada, que é sub-regulamentada e altamente concentrada (90% da indústria está nas mãos de 15 famílias). Como outros meios de produção e circulação de informação tornou-se mais facilmente disponíveis, a mídia corporativa do país começou a perder credibilidade. Os meios alternativos foram veementes em sua condenação do Governo do Estado de São Paulo no último domingo, e com razão. Mas em outra parte da esquerda política há indícios de dissimulação.

O quadro mais amplo por trás da história Pinheirinho é boom econômico do Brasil, em que a construção e a propriedade estão jogando um papel crescente. Este processo foi acelerado pelo Brasil ser escolhido como sede da Copa de 2014 e Olimpíadas de 2016. Um dossiê produzido pela Coordenação Nacional de Comitês Mundial estima que cerca de 170.000 pessoas em todo o país serão expulsas devido à eventos esportivos (os números oficiais nunca foram anunciados). Em última análise, significa o estado entregando áreas públicas – aquelas ocupadss pelos pobres -, enquanto contribuintes bancam todo o processo. Talvez o pior caso até agora tenha sido no Rio , onde os despejos têm sido tão autoritários e unilaterais como a do Pinheirinho, espetacularmente militarizados. Em comparação, as vozes na esquerda têm sido muito mais baixas para denunciar isso.

O desenvolvimentismo que caracteriza o governo de esquerda Rousseff, com sua ênfase no crescimento econômico e indicadores quantitativos em vez de participação proteção ambiental e redistribuição da riqueza, encontra-se em um impasse político. Muitos na esquerda têm encontrado dificuldade para articular uma crítica desses processos. Há agitações que sugerem que isso pode estar mudando, como as campanhas recentes contra a Petrobrás (empresa estatal de petróleo), Vale do Rio Doce (mineração) e construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Eles são pequenos sinais, até agora ainda um pouco isolados, mas pode ser o começo de algo. Se assim for, Pinheirinho poderia revelar-se uma lição, uma acusação e uma inspiração.

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111 Comentário

  1. O que mais me revolta é que, num país decente, algo desse tipo não geraria discursos e revolta, mas sim uma revolução. Uma primavera paulista.

    Mas o que vejo são uns poucos abnegados indignados e uma imensa massa que acha que, como não é com eles, tá tudo beleza.

    Ontem no twitter, uma figura me disse que estava revoltada pq não pôde pegar um ônibus por causa da bagunça. E ela queria que os refugiados se explodissem.

    Um político que conheço do PSDB declara, diversas vezes, que aprendeu com Covas que “bater num tucano é bater em todos”, e que sua defesa de Alckmin é incondicional. E ele vai além, diz que os “petistas” vão “arrumar um mártir” – ou seja, já estão querendo culpar o PT pelos assassinatos que ELES cometem.

    E, enquanto isso, no FB só tem campanhas pró direitos dos animais, piadinhas e o de sempre, como se nada tivesse acontecido.

    E a tukkkanada continua a repetir ue estavam “apenas seguindo ordens”, como se Nuremberg nunca tivesse acontecido. E ainda dizem que como “não há mortos”, então tudo bem!

    …NA CARA DURA!

    Estou com MUITA vergonha de ser brasileiro. Que falta faz um Brizolla!

    • Tenho vergonha só do Alckmin e dos partidos emergentes que fazem algum aproveitamento político do incidente. Quanto a ser brasileiro, acho que tenho mais motivos para ter orgulho, dados os indicadores sociais e sua evolução recente no país. Primavera … o Rudá quer revoltas, primaveras, rebeliões, mas discordo dele: acho a leitura dele sobre o que o povo quer (ou precisa) errada. Sim, em vários momentos vemos partidos emergentes e grupos e organizações a eles vinculados tentando forjar essa ‘rebelião’ com pessoas que usam laptop e tênis de marca. O povo quer paz social, casa, comida, educação, trabalho …

      • O povo quer é respeito, meu caro.

        E #Pinheirinho mostrou que o estado de direita não o respeita.

        Não “quero” revolução nenhuma. Os fatos, o desrespeito, o crime cometido, a impotência do povo de reagir a esses abusos, é que exige uma revolução.

        Ou exigiria, se não tivesse tanta gente que se OMITE, fecha os olhos e finge que não é com ela quando algo dessa proporção, dessa magnitude, ocorre, simplesmente por ter votado no canalha responsável pela barbárie.

  2. não esqueçam q o Alckmin tem 69%de APROVAÇÃO entre o povo de São Paulo!

  3. 25/01/12 aniversário de são paulo. um dia inteiro sem a globo (pelo menos um dia) participem desse boicote

  4. http://justicaemais.blogspot.com/2012/01/o-pinheirinho-paulistano-de-2006.html?spref=tw

    ISSO é como a decisão judicial deveria ter sido. É assim que uma justiça decente decide: legal E legitimamente, e não com o interesse político de uma corja sem-vergonha em vista.

  5. Se você não cuidar, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo.”

    Malcom X:

  6. Não é mais possível isso é inadmissível que esse jornalista do PIG sejam tão covardes e mau caráter para colaborem com essa barbárie como não existe um único jornalista que fure esse bloqueio criminoso e aponte o que esses nazista estão fazendo em São Paulo , para mundo subserviência tem limite.

  7. O que o cidadão que recebeu o carinho da polícia estava fazendo num local onde há ordem judicial expressa para desocupação?

  8. Na época da ditadura, quando o Corinthians, que fazia mais de 20 anos sem ser campeão, ganhou o campeonato, vários corintianos foram festejar na Rua Augusta, foram recebidos pela PM educadamente> Isso não foi noticiado em jornal algum. Só soube que havia mortos porque escutei na BBC de Londres, quando escutava a BBC. Portanto, a midia foi sempre assim, junto com os poderosos. Nenhuma linha a respeito dos mortos.

  9. Não há sumissão da ditadura midiática à censura do desgoverno Alckmin : há cumplicidade, uma vez que ambos defendem os mesmos interesses de classe. Mais uma vez conclamo a Sociedade Civil oprganizada de seu estado a reagir. A lavegem cerebal da mídia precisa ser quebrada não apenas com a limitada ação da web, mas através da mobilização que denuncie aos cidadãos as atrociedades que o PSDB e os barões da comunicação promovem em São Paulo. Muito bom o artigo do The Guardian ao denunciar os horrores de Pinheirinho e a concentração da mídia no Brasil; contudo, como todo artigo de gringo, não conhece nossa realidade, além de defender interesses conhecidos dos estrangeiros, desejosos em apossar-se de nossas riquezas ambientais e limitar nosso desenvolvimento. Assim, é evidente que o Governo Dilma é passível de críticas, mas acusá-lo de não priorizar a distribuição de riquezas é um despautério: pode-se criticar a velocidade e a abrangência dessas distribuição, mas não se pode negar que ela existe, sob pena de essa negação esquisofrênica ser somente uma capa para criar um “quadro” adequado aos interesses dos gringos, desejosos de frear nosso desenvolvimento e apossar-se de nosso meio ambiente com sua hipocrisia ecológica, objetivo final do texto do Guardian, que cinicamente procura colocar em uma mesma mistura os horrores da direita que controla o poder em SP com as manobras hipócritas dessa mesma direita para tentar impedir o crescimento do Brasil usando o cinismo ambiental, que é visto pelo jornalzinho inglês como “reação” popular a políticas “excludentes” do governo, exatamente o contrário do que são as ações desenvolvimentista que levaram ao início da construção das hidreléticas do Madeira e à expansaõ da Petrobrás, medidas que encontram-se dentro de um projeto maior de um Brasil soberano, independente e justo. A reação popular precisa vir contra as canalhices conservadoras(nas quais está o “ambientalismo” à serviço dos gringos, como já dito)e das quais os horrores de Pinheirinho desponta como monstruosidade mais recente, que urge pela punição de todos os responsáveis dessa barbárie que configura-se como a real cara de nossa direita em meio à “estranha confusão” dos diagnósticos apresentados nos últimos parágrafos da matéria do Guardian.

  10. Ta, ocorreram mortes? Os moradores não reagiram e nem atacaram os policiais?
    KD PROVAS? Ninguem tinha uma porcaria de celular com camera pra tirar fotos?
    Quando será que vcs vão aprender que não precisam da benção da Globo e jornais pra contar sua história?
    Vcs só precisam de internet e PROVAS que alguma coisa aconteceu. Ou vcs acham que toda a mídia mundial
    ia ficar quietinha?
    Estes videos de depoimento não provam nada. Parem de viver no século passado, vivemos na época da informação

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